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Olhos Vendados (Conto)

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(Ilustração: Quézia Aguiar)

Ela me encarou como nunca. Cerrou os olhos e sinalizou para que eu sentasse. O som pareceu abafar, de repente. Do bolso de trás tirou uma venda e com o olhar triste e penetrante de uma serpente, tapou-me os olhos com força. E repetiu abruptamente para que eu não tentasse retirar a venda. A escuridão me trouxe maus pensamentos. A combinação do som abafado e a voz forte, que sempre fora doce e calma, me fez refletir e perguntar onde estaria o erro.

O silêncio quase me sentenciou. Culpa do que nunca existiu e a verdade latente apontava a lança do medo.  Segurei firme na cadeira de ferro e tentei me acalmar. Movimentei os olhos e senti o tecido sobreposto, esticado, amarrado com uma força irrevogável. Eu poderia ter reagido. E poderia ter me negado a sentar. Poderia não estar ali. Mas consenti.

Ela não me disse nada e eu ouvia objetos sendo arrastados numa profundidade tridimensional. Ecos de frases e trechos de ofensas que nunca existiram. Um sonoro delírio epilético, numa repetição infrene. Flashes em choque com a realidade – uma mistura incandescente de amor e dor, como uma poesia parida de transe, em cores cegas, texturas intocáveis e calor de odores duvidosos. Algo do meu passado que doía.

O tic-tac do pulso me fazia apertar a cadeira, ignorando a ferrugem aliada às unhas, que inundavam a fenda do ferro com o suor que descia das mãos. O calor se fez presente e os poros transbordavam um pavor que descontrolava o sistema nervoso e qualquer tentativa de ordem por parte da razão. Uma armadilha. Uma viagem psicótica ao fundo de um eu desconhecido, obcecado por um diafragma frenético que tentava regular os sinais vitais.

Ela gemeu depois de um ruído de zíper. Mas o sinal foi audível o suficiente para me levar ao soluço. Aquela brincadeira havia desencadeado o perigo de uma galopada sobre um animal silvestre. Eu tentava engolir a saliva, focar em algo real. Em pouco tempo o meus sinais se transformaram em uma compulsão nervosa. Eu desejava todos os monstros da infância. Eu implorava socorro. A musculatura rígida exigia um debate metafísico entre as forças nevrálgicas e a trepidação mental. Um revival kafkaniano, onde eu arrastava uma bagagem intrépida de violência e caos. Uma anti-fuga em forma de desatino. Um soco no ar. Uma batalha invencível contra o próprio medo.

Um sino badalou ao fundo. O silêncio se fez ainda mais urgente e a ressonância pulsava no infinito. O agudo liberou um som cristalino. Agora eu ouvia sua respiração. Ela estava diante de mim, calada, aflita, exalando um perfume desconhecido. Não podia vê-la, mas sentia sua pele aveludada a poucos centímetros. Ouvia seu coração acelerado, pedindo calma, retumbando num sincronismo perfeito, que uniu nossas inspirações e respirações. Lentamente, ela removeu a máscara negra e a claridade que quase me cegou pela segunda vez, se transformou em uma aura branca, de tecido nobre e pele clara, que foi se fundindo ao espectro da minha alucinação. Folhas secas desenharam um ar de inocência quase albina, invadindo nossos corações, aliviando a dúvida e o contrassenso atemporal.

A névoa transpassou nossos corpos e explodiu numa alegria contagiante. Uma marcha iniciou o momento em que enxerguei um par de alianças douradas, enfeitadas com diamantes puramente lapidados e acomodados em veludo vermelho. Erguendo os olhos, pude notar seu vestido e um longo véu que texturizava sua feição de felicidade, colocando-me de pé e me dando forças para, juntos, dizermos sim.