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Barbara Cunha

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Aline

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Geórgia - Casual

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Conto: O Trem do Futuro

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(Ilustração: Quézia Aguiar)

Hoje, aos 66 anos, vejo a mesma imagem. A vida acabou por aqui. Aguardo por uma prova real e colorida do que um dia foi a minha existência. Conto, desde o fatídico acontecimento, o tempo em que estou aqui. Inutilmente, pois aqui não existe tempo. Passado e presente são sempre noite. O futuro não existe, pois nada acontece. É sempre vácuo e nulo. Nesta idade, não envelheci. Algumas coisas foram-se e temo que algo mais se vá. Não sei onde estou. Aqui o tempo dorme um longo sono. Talvez não saiba que eu exista. Talvez não lembre que me esqueceu.  E não há o que lembrar. Vivo no retrato de um tempo que não se conhece.

Caminho lenta e silenciosamente. Parte de meus sentidos se alterou com o tempo. Devido ao silêncio quase absoluto, tive a audição aumentada consideravelmente. Minha visão descoloriu-se. O olfato viciou-se no odor do mesmo alimento. Alimento-me do que crio numa estufa, com poucas sementes que encontrei desde que percebi que nada mais florescia. É, sim, um cultivo induzido, pois não há sol. Os animais foram levados. Restam-me apenas as coisas sem vida: uma mesa, alguns livros, xícaras, um prato de barro, talheres e um espelho.

Sinto-me péssimo, sozinho. Olho para o nada nutrindo minhas lágrimas nesse pesadelo. O céu sempre escuro mantém a temperatura fria. Nada aqui estraga, amassa ou envelhece. Nada acontece. Mesmo quando se vive apenas consigo.

Há exatos trinta anos, numa tarde misteriosa, um trem parou na estação desta cidade. O seu maquinista, imponente, anunciou através de um estranho alto-falante que aquele seria o último trem de nosso tempo. Partiria rumo ao futuro e não voltaria. E não haveria outro. Insistiu, aconselhando que comprássemos passagens antecipadamente, pois o trem partiria às vinte horas, impreterivelmente. Mal humorado e prevendo charlatanismo, não me comovi com a história do suposto legionário do tempo. Dei de ombros e caí num sono profundo.

Horas depois, acordei com o alvoroço da multidão que se estapeava para adentrar ao trem. Acreditei que poucos seriam seduzidos pelo charlatão. Para minha surpresa, toda a cidade compareceu, levando tudo o que podia: víveres, móveis e uma infinidade de bagagens. A tripulação parecia feliz. Uma felicidade sarcástica e típica de quem consegue lograr o raciocínio lógico. Não me movi. Da janela do quarto, que fica de frente à estação, percebi que olhavam atentamente ao redor, buscando por algum desavisado ou esquecido. Permaneci intacto e esperei que desistissem.

19:50. Todos embarcaram prontamente ao som do primeiro apito. Vinte e dois vagões gigantes abrigavam a pequena população aglomerada e eufórica. Dez deles levavam as bagagens, animais e comida. As luzes piloto apagaram-se e outras milhares, quase ao mesmo tempo, acenderam-se magnificamente. 19:55. Outro apito quase me ensurdeceu e um assovio de turbina gradualmente iniciou-se. O trem prateado elevou-se lentamente e recolheu suas escadas. Mais um apito e todas as portas se fecharam em sincronismo. Pontualmente, às 20 horas, o trem liberou toda a pressão das turbinas e partiu velozmente rumo ao oeste, estremecendo a estação e a minha vidraça. Levou consigo uma nuvem de poeira.

Senti minha respiração travada. Forcei o diafragma e quase estourei meus pulmões num grito eloqüente, carregado de indignação. Exauri todo oxigênio do corpo num desabafo e promessa de que ninguém me levaria naquele trem. Ouvi o eco de meu desespero pelos vales, recuperando, com lentidão, a respiração, como uma resposta e um sussurro de arrependimento. Permaneci em silêncio, na esperança de que algo sucedesse àquele momento. Desde então, nada mais aconteceu.

Hoje, depois de muito tempo, caminho até a estação, no mesmo horário, perguntando para onde teria ido aquela gente. Vestido com a mesma roupa e chapéu daquele dia, novamente fui adentrando… Passei pelo hall e firmei meus olhos novamente na bilheteria vazia. Desviei das catracas e desci lentamente a escada de mármore, economizando pressa. A plataforma estava limpa, impecável. O piso brilhava enquanto eu caminhava, carregando meus pensamentos e me dirigindo ao ponto no qual costumava esperar o trem. De todos os ângulos, nada via. Somente a escuridão dos vales e o túnel nebuloso.

Imóvel, refletia sobre o silêncio. Nenhum ruído. Minha mente buscava alguma digestão. Algo que não a lembrança do maquinista cerrando os olhos e encarando-me pela vidraça. Inerte à minha vontade contracenava com a solidão de um momento sem fim.

Subitamente, senti minhas pernas estremecerem. Um arrepio frio e contínuo surgiu na nuca e atravessou o corpo. Um vento fraco soprou em meu rosto, aumentando a sensação de frio. Meu casaco balançou lentamente. Pensei em outro breve pesadelo, desconsolado e de costas para aquele vento, que mais parecia uma peça de minha mente, como outras já ocorridas.

Um vento mais forte sacudiu meu casaco. Uma pressão ainda mais forte e intensa atravessou-me o peito. O coração disparou. Agarrei em um dos pilares. Ergui a cabeça e vi o ponteiro dos segundos se movendo. Vinte horas e cinco segundos… seis, sete, oito… A temperatura elevou-se subitamente. Odores e ruídos diferentes invadiram meus sentidos. Eu podia enxergar claramente e com todas as cores que me foram ausentes. Suspeitei novamente, estremecendo.

Olhar fixo no túnel, uma pequena luz amarelada surgiu ao longe. Forcei a vista e novas cores refletiam com mais intensidade. Mais calor e ventos fortes me envolviam numa explosão de sensações esquecidas. Agarrei a pilastra com toda força e segurei o chapéu. A luz agora era absoluta e um ruído me penetrou os ouvidos e os pensamentos, de modo que não pude relutar. Enquanto me sentia atônito e a mercê daquela situação pavorosa e excitante, o mesmo trem de trinta anos, prata e multicolorido, passou por mim numa velocidade espantosa. Pude ver que não havia ninguém no comando da locomotiva. Pensei por um instante que o trem não pararia. Num estalo, o trem ancorou e expeliu toda a pressão das turbinas. Portas se abriram e nada vi. Aguardei alguns instantes até que algo se movesse ou alguém saísse de algum vagão. Nada aconteceu. Pensei em entrar, mas lembrei que não havia ninguém no comando. Meu pensamento desviou e o momento daquele grito voltou à memória, no mesmo lugar. Hesitei novamente. O trem permanecia imóvel e silencioso, como um gigante dormente. Enchi os pulmões e os exauri num novo grito de desabafo e eloqüência. Desta vez, um grito decisivo.

Entrei desesperadamente e me sentei na janela mais próxima. O apito soou e as portas se fecharam. Uma pressão contraiu meus músculos e o trem partiu como numa explosão. Lançou-me, sozinho, num rastro de velocidade contínua. No relógio, os ponteiros giravam rapidamente, avançando os dias no marcador. Senti minha pele enrijecer. As roupas foram se decompondo, envelhecendo num processo veloz. Procurei meu reflexo no vidro e encontrei meus cabelos grisalhos, olheiras e barba, que não existiam. Minha visão amarelou-se e o ruído do motor começou a se afastar enquanto tentava balbuciar qualquer coisa. Minha língua engrossou. Tentei engolir uma saliva e senti um arranhão na garganta. O coração disparou e meu corpo estremeceu em desespero. Levemente me envolvendo, uma canção suave me fez repensar a vida, agora por um fio, escurecendo-me as vistas e resumindo-me a uma simples lembrança.