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Quando vi Ventriloquist ainda me considerava um iniciante na fotografia. E nem imaginava o quanto essa peça iria transformar a minha forma de fotografar, de enxergar a linguagem de cena e fazer disso uma tela para pintar minhas fotos. Conversei algumas vezes com Thomas e durante alguns delírios ele apontou meus erros artísticos e acentuou uma qualidade que hoje é evidente em meu trabalho: a personalidade. Ninguém consegue dirigir como ele e eu fiquei grilado durante anos, imaginando como encontrar a sintonia perfeita entre o trabalho, a necessidade de quem me contratava e a tal personalidade. Unir tudo numa foto era para mim uma possibilidade surreal. Eu não me via como artista porque pensava na técnica exaustivamente. Thomas me mostrou que a mão do artista, seja qual instrumento ele use, é o que define a particularidade de uma obra. Fosse disparar o obturador ou tocar um Lá menor no violão, eu jamais seria João Gilberto e ele jamais seria Otto Stupakoff. No entanto, podemos ser nós as personas daquilo que queremos ser. Seja por excelência ou teimosia.
Thomas polemizou muita coisa durante a sua carreira e eu vi muita gente descer a lenha em sua vida pessoal, por ser isso ou aquilo. Mas nunca vi ninguém contestar seu trabalho e sua magnitude cênica. A crítica tem opiniões divergentes sobre as peças e por isso nunca chegaram a uma conclusão negativa. Anos mais tarde, pesquisando sobre as peças de Thomas, me deparei com a fotografia de Ary Brandi. Sem saber que meu destino seria mesmo a fotografia, eu já amava essas armações de luzes e o ruído do preto e branco de Brandi, que ficou registrado como mensagem subliminar. Ary Brandi conseguiu uma façanha e suas fotos são realmente um retrato fiel da complexidade e amplidão da obra de Thomas. Ainda não me aventurei a fazer fotos de peças e receio que demorará um pouco. Primeiro porque espero quase silenciosamente pelo convite de Thomas para fotografar uma peça sua e, segundo, porque meu grau artístico nunca se equivalerá ao dele. Pelo menos enquanto nossos ruídos forem completamente diferentes e eu, um fotógrafo quase anônimo.
 Foto de Ary Brandi - Carmem com Filtro - Gerald Thomas
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